"onde possa plantar os meus amigos, os discos, os livros e nada mais"
a ouvir Elis Regina
À cerca de cinco anos comecei a cozinhar. Por motivos escolares tive que ir viver para longe, numa residência de raparigas. Sou neta de uma cozinheira fenomenal que ainda hoje sabe as receitas de qualquer iguaria, apesar de já não conseguir acender o fogão. Uma cozinheira típicamente portuguesa, com os enchidos e refeições bem condimentadas que o nosso povo merece. Assim que me vi sozinha fui obrigada a começar a cozinhar. Não era uma actividade que gostasse, sempre tive uma familia que o fazia por mim. Aos poucos fui conhecendo os legumes, as leguminosas e um mundo mais saudavel. Aprendi a amar a cozinha com tudo o que nela há, a admirar os seus instrumentos mais milenares e tradicionais. Aos poucos compreendia que cozinhar era uma terapia, tal como a poesia, o teatro e a fotografia.
SOBRE CONDUZIR...
A sexta-feira aproxima-se numa santidade imensa e efémera. O corte profundo do trabalho afincado, deixa-me num estado de profunda lentidão. Entre o meu cérebro e a minha alma, estão as árvores impiedosamente despidas. Gosto de apreciá-las em dias de fragmentado descanso. 


Lembras-te quando fomos beber chá branco e roibos àquele café ao pé do Trindade?Estavamos à procura de algo que nos aquecesse o corpo gelado e molhado pela chuva. Lembro-me que foi dos encontros mais importantes, falámos do que mais nos atormentava, como sempre, e de como descubrimos um caminho novo por entre as ervas daninhas que teimavam em fechar o nosso caminho. Disse-te que nunca ia sair do meu país, pecisava das pessoas que cá estavam, do amor que tinham para me dar todos os dias, do carinho e da vivacidade depressiva lisboeta. Precisava de a ter ao meu lado. Ela podia ser minha quando bebiamos muito. E isso bastava-me e alimentava-me.
Hoje já nada do que tenho me basta para me prender ao meu país, à minha cidade, ao meu rio.
E se o cosmos congitar a meu favor, irei...sem questionar o mundo, sem questionar o amor elouquente de março.
Não chores quando eu partir,
H.
o coração dela era feito de um finíssimo cristal pronto a quebrar cada vez que o tempo mudasse. e quando se lembrava do dia em que vinho suportou o amor maior que teve na vida, afagava o rosto na neve e gelava as lágrimas junto à terra.
dizem que o pequeno estilhaço de cristal do coração que ainda tem espalhado pelo corpo, se transforma todas as noites na Primavera que viveu.
durante o dia, jura pelo sagrado, que o coração está intacto e que não há lembrança que o destrua.
[excerto da Primeira Carta II]
PAVILHÃO B 